25.7.10

Mozart do Agreste

Mozart do agreste

Mario Osava*

Sua vida vai virar filme. É um herói, fez “um trabalho impressionante, humanista”, em que a música promove a “redenção das pessoas”, justifica o cineasta Paulo Thiago, que planeja começar as filmagens em outubro e já tem o roteiro praticamente pronto. Será uma obra ficcional, mas “baseada em fatos reais”, adiantou o diretor do documentário Coisa mais linda, sobre a bossa-nova, e de Policarpo Quaresma, adaptação do romance de Lima Barreto.

O personagem real é Mozart Vieira, que deu nova vida à pequena cidade de São Caetano, no interior de Pernambuco. A Banda Sinfônica do Agreste, mais conhecida como Meninos de São Caetano, apresenta-se nos melhores teatros do Brasil e de vários países europeus desde a década de 1990. Constitui a parte mais visível de um projeto que tomou forma na Fundação Música e Vida, em cuja sede, um velho casarão, 200 crianças recebem atualmente ensino musical e reforço escolar.

Tudo começou na infância de Mozart, na própria São Caetano. A sensibilidade social e musical herdada do avô e da mãe o levou, ainda menino, a ajudar crianças pobres da periferia “dando-lhes a comida que fazia falta em casa”. Morava perto do cemitério e durante a seca via passar “caixão de anjo” quase todo dia, lembra ele. Um dia, notou que ao tocar violão, aprendido desde os 9 anos, despertava vivo interesse dos meninos pobres, mesmo os alunos mais rebeldes. Decidiu então, intuitivamente, aos 15 anos, em 1978, unir música e trabalho social.

Criou um coral que cantava nas missas, tocava violão nos bairros, arranjou instrumentos e salas emprestadas para aulas. “Desde então, trabalho de domingo a domingo nisso”, vencendo críticas e a descrença inicial na sua “loucura”.

Foi então que sentiu necessidade de estudar música a sério, fez, durante 10 anos, o Conservatório em Recife, a 150 KM. E depois, a faculdade de música em João Pessoa (mais 120 KM de Recife), bacharelando-se em flauta transversa. As longas viagens semanais não interromperam as atividades em São Caetano. Foi aprendendo e ensinando aos meninos, encarregando-se de diversos instrumentos. Sua banda conta apenas com instrumentos de sopro, além das vozes. Segue a tradição local, que é a das bandas de pífanos, explica o maestro, que só agora está fazendo o mestrado em Regência por uma universidade americana – que o obriga a periódicas idas a Recife. A sua preocupação com as raízes culturais do agreste fica patente no repertório dos espetáculos e discos da banda, na sua recusa a convites para estudar ou trabalhar no exterior e até mesmo nos seus estudos tardios. Quis consolidar as raízes antes de freqüentar a academia, explicou.
Fonte: Portal IBASE

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