27.12.10

Noel Rosa: 100 anos

Agora, transcorridos 100 anos da sua entrada em cena, nós, os sobreviventes, observamos sua produção artística e somos levados a reconhecer a força de sua poesia

23/12/2010

Leandro Konder

A repercussão da existência de músicos boêmios dotados de indiscutível talento se limitava a um setor restrito, e em certo sentido isolado da sociedade.
Almirante – a mais alta patente do rádio, como se dizia – pagou o preço de um pioneirismo: se dispunha a publicar um livro exclusivamente sobre os “sambistas”. E, de fato, publicou. Contudo o livro não teve a ampla difusão que pretendia alcançar.
Depois dele vieram os dois autores da biografia “clássica” de Noel, Carlos Didier e João Máximo. Vários críticos aproveitaram o espaço aberto pelos dois biógrafos: meu amigo Sergio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho, Jacy Pacheco, Luiz Ricardo Leitão, entre outros, provocaram saudáveis discussões.
Noel chegou a se tornar algo como um nome símbolo da MPB. Suas canções foram cantadas por gente como Aracy de Almeida, Marília Batista, Aurora Miranda, Francisco Alves e outros.
Ele combinava perfeitamente a disciplina exigida pela arte, a poesia e a musicalidade, como também a boemia, a disponibilidade para o novo, e um ânimo brincalhão sempre pronto para ser reativado.
Seus leitores e seus ouvintes gostavam das “molecagens” que ele fazia. Uma historinha que fazia sucesso era aquela do bonde: Noel descia do bonde lotado numa estação que era logo ultrapassada pelos viajantes. E, ao descer, gritava para os outros “viado!”. As pessoas, naturalmente, se voltavam para ver quem era aquele que gritava. Noel as decepcionava, esclarecendo: “eu chamei um só”.
A unidade dos dois elementos perceptíveis na formação da consciência de Noel é um problema para nós, pesquisadores, mas não para ele. O compositor expressava tanto o espírito libertário rebelde das suas canções, como a autodisciplina necessária ao trabalho dos artistas.
A credibilidade não era essencial. Num de seus primeiros sucessos, uma moça brasileira é abandonada por um português que embarca no navio “Adamastor, pra Portugal”, a fim de “se casar com uma cachopa”. A solidariedade à moça leva o compositor a propor que se dê uma sova no galego, reconhecendo que ele já tinha uma situação segura em Portugal.
Outra ambiguidade crucial na alma do poeta estava na sua visão das mulheres. Lembremo-nos do samba em que ele diz: “Você vai se quiser, pois a mulher/ não se deve obrigar a trabalhar/ mas não vá dizer depois/ que você não tem vestido/ que o jantar não dá prá dois”.
Ao longo de sua obra, em diversas ocasiões, Noel soube ser ferino em sua representação da realidade e da malandragem. A proposta de substituir a palavra “malandro” pela expressão “rapaz folgado” teve, em Wilson Batista, um efeito devastadoramente irritante, mas não ocasionou um rompimento de relações entre os dois. Para Wilson Batista, para Ismael Silva e o próprio Noel as contradições vinham da vida: “as vezes é um sorriso/que acompanha uma esperança;/outras vezes é um riso/que provoca uma vingança/”.
Num samba de 1931, Noel já se encaminha para a busca de uma contradição que pode se tornar maior do que a razão: “da discussão sai a razão/mas ás vezes sai pancada/A questão é complicada/ Quero ver a decisão/”.
A década de 1930 ficou marcada pela contribuição de Noel à MPB. E o que se viu foi não aquilo que Noel sublinhava, o espírito brincalhão, o humor, mas a espantosa produção poética. Para compor seus poemas, o compositor precisou conviver com os grandes tumultos da criação artística, sem se deixar absorver por eles.
O poeta sobreviveu a um acidente, quando o médico parteiro lhe quebrou o maxilar. Mais tarde, fiel à sua paixão pelas mulheres, sentia-se feio. E compensava essa pretensa feiúra com o talento que tinha na música e nas letras. Agora, transcorridos 100 anos da sua entrada em cena, nós, os sobreviventes, observamos sua produção artística e somos levados a reconhecer a força de sua poesia: “Fazer poema lá Vila é um brinquedo/ao som do samba dança até o arvoredo/eu já chamei você prá ver/você não viu porque não quis/quem é você que não sabe o que diz/”.

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