29.12.10

Toques Musicais - Oito discos que contam o seu tempo

Acabam de ser relançados os oito discos oficiais de estúdio da banda Legião Urbana. Os álbuns chegam em vários formatos: em caixa, separados em CDs digipack e em LPs. O pretexto para tal é o aniversário de 25 anos do primeiro deles.

Por Julinho Botelho

Acabam de ser relançados os oito discos oficiais de estúdio da banda Legião Urbana. Os álbuns chegam em vários formatos: em caixa, separados em CDs digipack e em LPs. O pretexto para tal é o aniversário de 25 anos do primeiro deles.

A música da Legião Urbana está para Brasília da década de 80, assim como a bossa nova está para o Rio de Janeiro da década de 50. Uma não existiria sem a outra, dentro da outra e no mesmo tempo da própria. E se Renato Russo e a sua banda não parecem tão idílicos e rebuscados quanto Jobim e cia., muito se deve a esses dois fatores. Enquanto a uns foi dado, mais ao acaso do que por merecimento, sal, sol, sul, curvas de mulheres e montanhas e um país próspero e livre, a outros a realidade foi bem mais concreta. Viveram, sim, é verdade, assim como os outros, dentro de uma obra de arte, mas esta desenhada, inventada pela genialidade humana, um tanto desprendida das relações humanas que se dariam por ali. Além disso, dentro desse traçado urbano ilógico e lindo, cinza e amplo, que ironicamente chamaríamos de Plano Piloto, costurava-se a manutenção dos estertores de uma ditadura já desmilinguida. E nela, seus últimos e pálidos generais a circular em seus Landaus pretos, circundados por batedores e manifestantes.

A trilha desse tempo não haveria de ter outro modo se não este. Era irada, direta, simples e um tanto infeliz. Só quem se vê parado na Esplanada dos Ministérios diante de uma chuva tropical que se avizinha em toda a sua amplidão é capaz de entender perfeitamente o que quer dizer: “A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos”. A volta do cipó que o bardo de duas décadas antes havia previsto se daria de forma avessa e muito menos heroica: “Desde pequenos nós comemos lixo/Comercial e industrial/Mas agora chegou nossa vez/Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

O tal lixo, a despeito de subverter toda a lógica da quadratura sal, sol, sul, samba jazz, estava longe de ganhar o direito de ser chamado assim. Era, na verdade, a revelação de um fotograma perfeito de seu tempo, a melhor tradução do pouco que se oferecia depois do tanto que haviam tomado: “Nos perderemos entre monstros/Da nossa própria criação?/Serão noites inteiras/Talvez por medo da escuridão”. Era, enfim, o melhor discurso que se poderia encontrar para uma juventude perplexa, completamente desacreditada de qualquer utopia, deslocada de seu tempo e espaço, e pronta para construir o seu próprio, repleto de dúvidas: “Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos/É o mal que a água faz quando se afoga/E o salva-vidas não está lá porque não vemos”.

A sensação latente de viver em um tempo sem futuro e de que o passado foi um engodo acompanhava cada passo, numa linguagem sem rodeios nem firulas. O drible e a ginga cabiam em outro universo que agora, pelo menos desta vez e neste tempo, não se encaixavam: “Quem me dera, ao menos uma vez/Explicar o que ninguém consegue entender/Que o que aconteceu ainda está por vir/E o futuro não é mais como era antigamente”. Até que a grande pergunta jamais respondida veio do passado batizando o disco que seria o divisor de águas definitivo entre o quase passado e o futuro que não chegava: Que país é este?

A maioridade os fazia despertar no outro, no todo. Dentre todas as bandas que circulavam no eixo Rio–São Paulo – e agora Brasília, a Legião Urbana mantinha, desde sempre e cada vez mais, o saudável hábito de trafegar pelas beiradas do mainstream. Era, talvez, o maior sucesso que se conhecia e se dispunha, sem por isso fazer o papel a que aos tolos não se prescindia.“Eu canto em português errado/Acho que o imperfeito não participa do passado/Troco as pessoas/Troco os pronomes”.

A ousadia artística e a desfaçatez com o sucesso transformava-os em um produto raro, de difícil explicação. Os anos noventa chegam para a banda com a mais corajosa e elaborada obra já alcançada por qualquer outro artista da mesma geração. O álbum singelamente batizado de “V”, de uma melancolia comovente e indisfarçável, alça a banda a um outro patamar inimaginável até pouco anos antes. Além disso, isola cada vez mais o seu líder, poeta e compositor principal. Renato Russo se torna, a passos largos, o nosso grande menestrel, uma espécie de Leonard Cohen tropicalizado. De quebra, o disco ainda traz a melhor canção de amor escrita nos últimos muitos anos. “Agora está tão longe, vê, a linha do horizonte me distrai/Dos nossos planos é que tenho mais saudade/Quando olhávamos juntos na mesma direção”.

Daí pra frente, o cada vez mais improvável e onírico toma conta dos discos, desde a capa até as canções. “Desenho toda a calçada/Acaba o giz, tem tijolo de construção/Eu rabisco o sol que a chuva apagou”. O pesadelo de Renato Russo, em versos agudos e melodias cada vez mais densas e simples, ao contrário de todas as suposições, continua falando direto com seu público que, naquele momento, já lotava e quebrava estádios. “Só por hoje eu não vou me machucar/Só por hoje eu não quero me esquecer/Que há algumas pouco vinte quatro horas/Quase joguei a minha vida inteira fora”.

Se, durante todo o tempo, a esperança parecia mesmo um traço muito frágil, a linha vai se esfacelando em milhares de pedaços que, paradoxalmente, insistiam em permanecer cantando: “Hoje a tristeza não é passageira/Hoje fiquei com febre a tarde inteira/E quando chegar a noite/Cada estrela parecerá uma lágrima”.

No final das contas, com uma capa que, ironicamente ou não, estampa a devastada solidão dos blocos do Plano Piloto, tudo se encerra com a canção “Travessia do Eixão”, do Liga Tripa, famoso grupo de músicos de rua da capital. O texto, do poeta brasiliense adotado Nicolas Behr, pede proteção aos pedestres que atravessam o eixão às seis horas da tarde. Dos que seguem pelas passarelas, alguns são assaltados ou estuprados. Dos que se aventuram a correr pelas pistas largas, muitos são atropelados. Dos outros todos, alguns poucos sobrevivem e ficam por lá.

Qualquer coisa além desses oito discos, sem nenhum desmerecimento, é apenas mais do mesmo.
Fonte:www.revistaforum.com.br

Crédito: *** Fanch The System !!! ***

Nenhum comentário:

Postar um comentário