25.2.11

Carnaval da Vai-Vai

Vai-Vai leva a música clássica ao sambódromo

SÃO PAULO - Bateria: coração que pulsa forte e emociona em qualquer desfile de escola de samba. Para inovar na passarela, é constante a busca por um estilo individual, que dará o ritmo com criatividade no momento em que a agremiação adentra o sambódromo e conquista os ouvidos do público e, principalmente, dos jurados. Muitas já foram as formas de recriar o compasso da bateria. “Paradinha”, “coreografias” e até união de ritmos diferentes marcam os carnavais brasileiros.

Na busca por inovação, a “Saracura do Bixiga”, como é carinhosamente chamado o Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai — penúltima escola a entrar na passarela na primeira noite de desfiles — promete emocionar o público com uma apresentação inusitada. A escola levará à apoteose do samba a combinação entre a delicadeza do violino clássico e a energia da bateria, formada por cuícas, pandeiros, agogôs, tamborins, repiques e outros instrumentos, sob regência do Mestre Tadeu.

A novidade é para apresentar o enredo, que em 2011 presta homenagem à trajetória do maestro brasileiro João Carlos Martins — considerado pela crítica um dos principais intérpretes da música erudita, e um dos maiores especialistas na obra do compositor clássico Johann Sebastian Bach. “A ideia partiu da escola, mas o desenvolvimento do enredo partiu de mim. Pensei em mostrar uma luta constante, de uma pessoa inspirada pelos deuses”, explica o carnavalesco Alexandre Louzada. “É o que teria de ser uma tragédia grega e se transforma em história de alegria”, conclui.

“A música venceu”

A história do maestro, que sempre teve em sua vida duas paixões — música e futebol —, será contada como uma sinfonia dividida por movimentos orquestrais —“presto ”, “allegro ”, “andante”, “adagio”,“intermezzo ”e“largo”— que revelará as vitórias e os dissabores vividos pelo artista ao longo dos seus 70 anos de vida.

Regado de magia e encanto, o enredo vai buscar na mitologia grega a abertura para o desfile, quando deuses do Olimpo e um cortejo seguem a carruagem de Apolo —padroeiro das artes — com pitonisas, representadas pela ala das baianas, que vêem o futuro do ainda garoto João Carlos. “Nesta parte, mostraremos que ele nasceu para ser o que é, inspirado pelos deuses”, diz Lousada.

Períodos como o despertar de João Carlos para a música clássica, assim como seu sucesso pelo mundo ainda como pianista, o pesadelo e a tragédia sofridos por ele que limitaram os movimentos de sua mão, e o seu “renascimento” à arte da música como maestro, são algumas das passagens que serão apresentadas sob as cores do pavilhão da escola: preto e branco.

“O carnaval não tem fronteiras, ele atravessa o mundo. Não tem língua nem cor, e a música facilita”, diz o vice-presidente da escola, Renato Maluf. Segundo ele, o investimento da escola para o carnaval 2011 é de R$ 2,5 milhões, e para apresentar o enredo, a escola entrará na avenida com 3,8 mil componentes, em 30 alas. “É um projeto grandioso, com o qual esperamos conquistar o título”, diz.

Dentre os destaques da Vai-Vai, estão dois dos cinco carros alegóricos que serão levados ao sambódromo. “O abre-alas possui três bases e totaliza aproximadamente 70 metros de comprimento; o carro que encerra e traz a orquestra é duplo e tem cerca de 50 metros de

comprimento”, adianta Maluf. Quanto ao homenageado, Maluf diz que “já existia uma parceria da Vai-Vai com o maestro. Ele participa de todos os ensaios”, resume.

Para o maestro, dentre as muitas homenagens que já recebeu, esta é a que o fez chorar de emoção. “É uma sensação difícil para traduzir em palavras. ”Segundo ele, carnaval e música erudita têm tudo a ver. “Só conheço um tipo de música, a de bom gosto. Se o samba ou música clássica tem bom gosto, não é ‘por quê?’, e sim ‘por que não?’ ”, diz.

Carla Machado
Fonte :www.panoramabrasil.com.br 

Nenhum comentário:

Postar um comentário