17.6.11

Religiosos Contra Homofobia


Por Suzel Tunes
Após realização de debate sobre Religião e Homoafetividade, em Igreja Anglicana, religiosos organizam-se para participar da Parada Gay no próximo dia 26, unidos em torno do tema “O amor lança fora todo o medo”
A escolha de um texto bíblico para tema da Parada Gay deste ano – “Amai-vos uns aos outros” – não tem gerado apenas polêmica com lideranças religiosas. Em meio às fortes reações contrárias dos grupos mais conserva-dores, surgem surpreendentes iniciativas de diálogo e cooperação. No dia 9 de junho, um templo da Igreja Anglicana no centro de São Paulo, a Paróquia da Santíssima Trindade, foi o local escolhido para um painel sobre “Religião e Homoafetividade”.
Na mesa de debates estavam um padre católico, um pastor luterano e uma sacerdotisa do candomblé, sob a moderação de um membro da Igreja Metodista. Além do apoio da Igreja Anglicana, o evento contou com a coordenação da Rede Ecumênica de Juventude (Reju), da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT) e da organização ecumênica KOINONIA, que atua na defesa de direitos humanos. Os próprios organizadores da Parada Gay 2011 professam fé religiosa: o presidente Ideraldo Beltrame pertence à Igreja Anglicana e o vice-presidente, Fernando Quaresma, ao candomblé.
Painel Religião e Homoafetividade, realizado dia 09 de junho, na Paróquia Anglicana Santíssima Trindade
O metodista Anivaldo Padilha, fez as apresentações dos convidados lamentando a ausência de líderes religiosos contrários à temática da Parada Gay e à aprovação do Projeto de Lei 122, que torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando-a à discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. “Convidamos pessoas para nos ajudar na reflexão. Fizemos um esforço para que a mesa fosse mais plural, mas alguns religiosos nem nos deram retorno”, disse ele.
Quem deu início ao debate foi a representante do candomblé, Mãe Maria Emília – ou, no idioma iorubá, como preferem os adeptos da religião, Iyá Maria Emília. Sacerdotisa da tradição Ketu, a ialorixá é presidente Associação Federativa da Cultura e Cultos Afro-Brasileiros de São Bernardo do Campo (SP) e coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde – Núcleo SBC. Para ela, a identificação do candomblé com minorias marginalizadas da sociedade é uma natural consequência da própria história de discriminação vivida pelos adeptos dos cultos afro-brasileiros.
A sacerdotisa afirmou que a sexualidade é encarada de forma “tranquila” pela religião que entende o relacionamento sexual como uma positiva e necessária “troca de energia”: “energia tem que ser trocada, mas não determinamos como isso deve acontecer. Longe de nós dizer se esse ou aquele está correto”. Antes mesmo que o debate fosse aberto ao público, Maria Emília dispôs-se a responder a uma pergunta que ela afirma recorrente: “Por que no candomblé tem tanto homossexual?” Segundo a ialorixá, o candomblé é “uma religião que acolhe” os homossexuais, ao invés de repeli-los com um discurso moralista.
Mas para o teólogo católico James Alison, padre e autor do livro “Fé Além do Ressentimento: Fragmentos Católicos em Voz Gay”, não é só no candomblé que se vêem muitos sacerdotes homossexuais: “A proporção de gays no clero é muito maior do que na população em geral”, revelou ele. No âmbito católico, a diferença é que, enquanto o laicato parece estar “avançando bem em relação à matéria”, no clero impera o silêncio. Inglês de origem, Alison resumiu, em seu idioma natal, a forma pela qual a Igreja Católica lida com a questão: “don´t ask, don´t tell” (“não pergunte, não conte”).
Segundo o teólogo, a homossexualidade tem implicações em uma das doutrinas fundamentais do ensino católico: a relação entre a Graça de Deus e a natureza humana. Ele explicou que, segundo o catolicismo, a partir do “pecado original”, todos os seres humanos vivem de uma maneira “distorcida”, contrária ao propósito de Deus para seus filhos e filhas. No entanto, a natureza humana é, em si, algo bom que pode ser “aperfeiçoado” pela Graça divina. “A graça de Deus não age abolindo a natureza humana, mas levando-a ao seu “florescimento” ou aprimoramento de seu potencial. Enquanto a Igreja Católica simplesmente negava a existência da homossexualidade, considerando os atos homossexuais como distorções de comportamento provocadas pelo pecado original, a doutrina da Graça seguia sem abalos. Para ser reconhecido como um filho redimido, bastava que o homossexual contivesse seus impulsos. Hoje, no entanto, a situação mudou: “Não dá para separar os atos do ser como se fazia outrora. Homossexuais não são pessoas hetero defeituosas”, afirmou o padre. O que traz para a doutrina católica uma questão crucial: se a ação da graça divina parte daquilo que se é, de que maneira se daria o aprimoramento do homossexual rumo ao propósito divino de redenção da natureza humana?
“A gente passou muito tempo tentando justificar nossa mera existência”, confirmou o teólogo André S. Musskopf, membro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana e pesquisador da temática de gênero e sexualidade. “Não preciso mais fazer isso porque sei que Deus me ama, a Bíblia me ajuda a ser melhor e tenho direito ao exercício da minha fé”, afirmou ele. André Musskopf disse, ainda, que muito já se escreveu na tentativa de “explicar” a homossexualidade e que ele evitaria argumentações baseadas em textos bíblicos. “Por exemplo, o livro de Levítico afirma que é ´abominação´ o homem deitar com outro homem. O mesmo livro também diz que não devo comer peixe sem escamas. Por que deitar com homem ainda é abominação e comer peixe sem escamas não é mais?”, questionou o teólogo. Para ele, a questão a ser realmente considerada é o controle que a ordem político-econômica exerce sobre a sexualidade e a religiosidade, o que explica a “virulência” cada vez maior das reações contrárias à conquista de direitos pelos homossexuais. “Estamos falando de controle de corpos para a manutenção de determinada estrutura de poder. Para se ter riqueza e poder, é preciso controlar os corpos das pessoas, controlar as formas pelas quais elas se amam, controlar o desejo. Não há como separar religião, sexo e política”, afirmou ele.
No momento do debate, Anivaldo Padilha voltou ao tema do poder simbólico. Para ele, a política é, de fato, a maior motivação do atual debate sobre homofobia. O Brasil estaria reproduzindo um fenômeno que já ocorreu nos Estados Unidos, com o apoio de religiosos fundamentalistas às plataformas políticas da direita. “A direita está perdendo sua capacidade de articular um discurso e busca um tema capaz de mobilizar a população. Por conta do forte moralismo existente no país, este é um tema fácil de ser manipulado”, alertou Anivaldo.
Preso e torturado nos anos 60, quando militava nos movimentos ecumênicos de juventude, por causa de uma denúncia feita por um bispo de sua própria Igreja, o metodista Anivaldo Padilha não abandonou nem a fé religiosa nem a militância social. Por isso hoje, tem sido um dos mais ativos incentivadores do apoio evangélico à luta dos homossexuais pela aprovação de leis que lhes garantam o pleno exercício da cidadania.
Ato Interreligioso. Memórias, laços e travessias: construindo compromissos de fé
Seguindo o tema “o amor lança fora todo o medo...”, religiosas(os) de distintas experiências de fé estiveram presentes, nesta última sexta-feira (10 de junho), no Ato Interreligioso na Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, em São Paulo. O evento - construído sob a organização de Koinonia, Rede Ecumênica da Juventude da Juventude (REJU), APOGLBT e Paróquia Anglicana – faz parte das atividades relacionadas ao mês do orgulho gay e procurou celebrar as conquistas e avanços das diferentes religiões em relação à homoafetividade.
 Ato Interreligioso celebrarou as conquistas e avanços das diferentes religiões em relação à homoafetividade
O centro da celebração foi ocupado por relatos de pessoas ligadas às religiões, revelando-nos como a fé/espiritualidade, em seu amor solidário, favoreceu a convivência fraterna, a auto-aceitação e o respeito em relação à homossexualidade. Celebramos o amor, “nas vozes do amor”. Próximo a este momento, celebramos “pelas memórias”, as histórias do movimento LGBT em relação à religião, e “pelos laços” que são construídos em comunidade a partir dos sonhos de justiça e paz. Ao fim, ligado às “travessias” que nos levaram até este encontro, nos lançamos “pelos compromissos” de caminhar por um mundo sem homofobia afirmando, numa Confissão de amor: “Cremos no amor que lança fora todo o medo. Cremos no amor que nos coloca face-a-face. Cremos no amor, sinal e espaço de nossa fé. Cremos no amor, assim, amando...”.
Por Daniel Souza (Reju-SP)
Participação de religios@s na 15ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo
KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço, juntamente com a Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, a Rede Ecumênica da Juventude (REJU) e a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT) apoiam a luta dos homossexuais pela aprovação de leis que lhes garantam o pleno exercício da cidadania.
Para tanto, foram organizados os seguintes eventos:
Dia 23 de junho: Feira Cultural LGBT que acontece no Vale do Anhangabaú.
Dia 26 de junho: Caminhada de religiosos e religiosas unidos em torno do texto bíblico encontrado em 1 João 4.18: “o amor lança fora todo o medo”.
As pessoas interessadas em apoiar essa causa, poderão se inscrever pelo e -mail: eventos.sp@koinonia.org.br ou pelos telefones: 11-3667-9570 ou 3667-8161
As 200 (duzentas) primeiras inscrições receberão uma camiseta com o slogan da caminhada.
Sobre a Parada GLBT de São Paulo
A Parada do Orgulho GLBT acontece desde 1997 e a atualmente reúne mais de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista e Rua da Consolação, principais avenidas da cidade São Paulo. Há 15 anos a Parada dar visibilidade às categorias sócio-sexuais e fomenta a criação de políticas públicas para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Para isso, todo ano ocupa os espaços públicos para elevar a autoestima dos LGBT e sensibilizar a sociedade para o convívio com as diferenças. O tema deste ano da Parada GLBT, que acontecerá no dia 26 de julho é: “Amai-vos uns aos outros – basta de homofobia”.
Com informações do Programa Saúde & Direitos de KOINONIA
Autor: Márcia Evangelista 

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