22.11.11

Os novos Capitães da Areia

Filme recria história dos meninos do trapiche de Jorge Amado com ótimo elenco, muito humor e música de Carlinhos Brown
22/11/2011

Maria do Rosário Caetano,
de São Paulo (SP)

Cena do filme Capitães da Areia, da cineasta Cecília Amado - Foto: Divulgação
Os Capitães da Areia estão de volta ao cinema. Há que se prestar atenção: são capitães da areia e não capitães de areia. Jorge Amado quis situar seus meninos em espaço preciso: um trapiche plantado nas areias quentes do mar da Bahia. Um trapiche-esconderijo. Se seus capitães fossem “de areia” seriam frágeis e desmanchariam como castelos feitos por meninos-escultores em dias de lazer praiano.
O romance, que já vendeu milhões de exemplares desde sua primeira edição (1937), ganhou, em 1970, versão cinematográfica gringa: The Sandpit Generals (ou The Wild Pack), dirigida por Hall Bartlett, falada em inglês e premiada no Festival de Moscou. No Brasil, esta versão só chegou às madrugadas televisivas, rebatizada de Dora. O sexto romance de Jorge Amado resultou, também, em minissérie de TV, dirigida por Walter Lima Jr, e em várias montagens teatrais. A adaptação atual traz na direção a estreante Cecília Amado, neta do escritor que faria 100 anos em 2012.
A jovem realizadora, filha de Paloma Amado, trouxe a trama original dos capitães da areia, ambientada nos anos 30, para a década de 50. E fez dos protagonistas Pedro Bala e Dora adolescentes morenos (ao contrário dos loiríssimos personagens do romance). Cecília embalou a narrativa em arrebatadora trilha de Carlinhos Brown e, o que é melhor, ampliou as tiradas de humor dos “capitães”. Jorge Amado, afinal, sempre encontrou espaço para exercitar duas de suas características mais sedutoras: o erotismo e o riso (às vezes rasgado, às vezes mordaz). O humor está até em seus romances mais raivosos (caso de O País do Carnaval, escrito aos 19 anos).
No final de Capitães da Areia – o romance, o protagonista Pedro Bala vira militante proletário. Dora morre (no livro e no filme). Professor, o capitão da areia que amava a leitura e o desenho, vira pintor no Rio de Janeiro. Volta Seca vai lutar com Lampião e bando, ao tornar-se o mais jovem dos cangaceiros. Sem-Pernas suicida-se pulando do Elevador Lacerda. Boa-Vida torna-se malandro e compositor de sambas e intrigas. Gato, o sedutor, vira cafetão de putas pelos bordeis da Bahia. Barandão substitui Pedro Bala no comando dos capitães-da-areia. Pirulito, o místico, vira padre.
Nos momentos derradeiros do filme, ao anunciar o destino de alguns dos “capitães- da-areia”, Cecília e seu co-roteirista, Hilton Lacerda, tomam certas liberdades. Trocam o suicídio de Sem- Pernas por destino mais promissor: ele transforma-se em equilibrista. Com picardia e sarro à moda baiana, a dupla caprichou no destino do devoto moleque que enchia de esperança o coração do Padre José Pedro. Pirulito, cultor de imagens de santos e rezador, ordenou-se padre. E haveria de transformar-se em papa. E não seria um pontífice qualquer. Será “o primeiro papa pobre”, que “vai ajudar os meninos de rua e vai parar de roubar, sendo papa, né? Já pensou papa roubando? Não dá! Nem na Bahia pode uma coisa dessas!”

Cidade de Deus

A diretora trouxe a trama original, ambientada nos anos 30, para a década de 50
Foto: Divulgação
Ao situar a trama nos anos 50, o filme de Cecília Amado criou um anacronismo: mandou Volta Seca para as fileiras do cangaço quando dele não restavam nem resquícios. O Governo Vargas dera fim a Lampião, em 1937, matara Corisco e baleara Dadá, em 1940. Mas isto é só um detalhe num filme de muitas qualidades. A maior delas é o elenco, oriundo de ONGs e projetos sociais de Salvador.
Como as crianças e adolescentes de Cidade de Deus (Fernando Meirelles/ 2002), os novos capitães-da-areia foram treinados em oficinas de dramaturgia. E todos deram conta do recado. Com garra e brilho.
No romance de Jorge Amado, o triângulo amoroso entre Pedro Bala, Dora e o Professor existe com discreta elegância. No filme ganhou maior relevo. A malícia erótica é mais forte no livro que na tela. Cecília quis realizar um filme para adolescentes. Mesmo assim, pegou censura 16 anos. Os produtores recorreram e conseguiram baixá-la para 14. Para alcançar os jovens, optaram por amenizar temas difíceis como suicídio e sexo entre menores. As cenas mais picantes ficam por conta da experiente prostituta Dalva (a bela atriz baiana, Ana Cecília), paixão do adolescente Gato, um dos capitães da areia.
Muitas sequências do filme foram elogiadas por sua boa carpintaria. Caso da fuga dos internos em reformatório, do trabalho nas lavouras de cana. O cinema brasileiro, que tinha fama de mau encenador de brigas, acertou com Cecília e sua equipe. Resultou muito bem filmado o confronto entre o bando dos capitães-da-areia e a gangue do Ruço, à qual se agrega o ressentido Ezequiel, expulso do trapiche por Pedro Bala.
Jorge Amado era ardoroso militante comunista quando, aos 24 anos, publicou Capitães da Areia. Por isto, os destinos de seus meninos de rua foram imantados pela crença num porvir revolucionário. Cecília, adolescente e adulta num mundo sem utopias, pós-queda do Muro de Berlim, cortou todas as referências à ideologia que alimentou a juventude e parte da maturidade do avô.
Para o escritor, o comunismo nunca foi incompatível com a religiosidade baiana. O candomblé é visto (no livro e no filme) como força libertadora. E vale lembrar que, quando deputado federal (pelo Partido Comunista Brasileiro), Jorge Amado defendeu a Liberdade de Culto Religioso, inscrevendo-a no texto da Constituição de 1946. No livro (e no filme) há simpatia, também, por um lado da Igreja Católica: aquele que faz voto preferencial pelos pobres. A figura de Padre José Pedro, homem de pouco brilho intelectual, mas de coração generoso, é vista com imensa ternura. Ternura que falta à alta hierarquia da Igreja, na Bahia, fechada em palacetes eclesiásticos e distante do povo pobre.

Sexo entre iguais

Cena do filme Capitães de Areia - Foto: Divulgação
A varíola, conhecida popularmente como bexiga, metaforiza, no filme, a Aids, doença que marcou profundamente o nosso tempo. Houve quem se incomodasse com o fato da varíola atacar, entre os capitães-da-areia, justo os que praticavam sexo entre iguais (os meninos Almiro e Barandão). Mesmo que Pedro Bala, líder do grupo, não aceitasse, de forma alguma, a homossexualidade passiva. “Uma das leis do grupo” – escreve o romancista – “ era que não se admitiam pederastas passivos”. Os que fossem pegos em tal prática “seriam expulsos” do trapiche.
A participação da travesti Mariazinha (de nome civil Geraldo) na sequência em que Pedro Bala se deixa prender e é levado à Delegacia (pois pretende resgatar um Ogum recolhido numa batida policial em terreiro de Candomblé) nos revela o quanto havia de preconceito na primeira metade do século passado.
Há quem veja, no filme, maniqueísmo entre personagens do povo (bons e idealizados) e burgueses, desenhados como caricatura e maus. Que Jorge Amado toma partido dos marginalizados, não há como negar. Mas romance e filme têm nuances perceptíveis. A mulher burguesa que perde o filho e adota Sem-Pernas (sem saber que ele apenas prepara terreno para o roubo a ser perpetrado pelos capitães-da-areia) é generosa e simpática.
Mesmo caso do personagem interpretado por Murilo Grossi, que se encanta com os desenhos do Professor. Chega a ignorar furto dos moleques (de quem é a vítima) e, como bom mecenas, se oferecer para arrumar escolas de artes onde ele pudesse se aperfeiçoar. E mesmo entre os capitães-da-areia há conflitos de consciência. O caso mais visível é o de Sem-Pernas, o moleque que se apresenta para a adoção, que precede novos furtos. No romance e no filme, ele vive crises angustiantes. No livro, opta pelo suicídio. No filme, ganha solução “mágica” ao tornar-se, mesmo aleijado, um equilibrista.

Síntese
Jorge Amado tem fama de ser escritor caudaloso demais. Redundante até. Quem reler, hoje, Capitães da Areia, verá que um exercício de síntese faria muito bem ao romance. Mas ninguém há de negar o poder de sedução de sua prosa. O capítulo dedicado ao passeio de cangaceiros e, também, dos capitães da areia nos cavalinhos iluminados de modesto carrossel são literatura de alta potência. O prazer lúdico e a beleza visual de sua combinação de palavras lembra a densa poesia de Mar Morto (1936).
O que ficou datado, no livro, além da fé inquebrantável num porvir socialista, é a redundância. Cecília e Hilton Lacerda souberam, com inventividade, condensar a retórica amadiana. O filme resultou sintético, lacunar e, portanto, capaz de motivar nossa imaginação.
Há quem qualifique a montagem de Capitães da Areia como videoclipada, à moda de Cidade de Deus, fi lme que tanta polêmica causou, acusado até de construir projeto artístico-publicitário batizado de “cosmética da fome” (em contraponto ao manifesto Estética da Fome, de Glauber Rocha/1965). O editor de Capitães da Areia (Eduardo Hartung) usa, sim, recursos de montagem semelhantes aos empregados por Daniel Rezende em Cidade de Deus.
Inclusive o “efeito chicote”, que tanto atraiu gerações plugadas no cinema de ação norte-americano e nos videoclipes contemporâneos. Mas o filme de Cecília Amado, assim como o de Fernando Meirelles, faz isto com parcimônia. Não abusa do recurso, não o banaliza. O tempo é o senhor da razão. Passados dez anos do lançamento de Cidade de Deus, com os ânimos serenados, as qualidades do filme foram se evidenciando. O mesmo deve acontecer com Capitães da Areia, um projeto que revelou atores-crianças-adolescentes-negros- mulatos-mestiços e expôs a tragédia histórica de nossos delinquentes juvenis. E o fez com humor e picardia, qualidades que calam fundo na alma brasileira.

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