23.8.12

Nelson Rodrigues

O bom pervertido



Em 23 de agosto, o escritor Nelson Rodrigues completaria 100 anos.  Infelizmente, morreu em 1980. Seria interessante vê-lo agora, centenário, tecer suas ideias e diálogos nesse ambiente de liberdade sexual, redes sociais e impulsos coletivos on line. No mínimo, um grande teste para a eternidade de suas frases, sempre atuais ao longo de mais de 50 anos de crônicas, peças teatrais e literatura em geral.

“Toda unanimidade é burra”, dizia ele. Mas somos todos prazerosamente burros em considerá-lo um dos maiores escritores brasileiros de toda a nossa literatura. Nelson Rodrigues revolucionou a forma, conspirou contra os padrões, subverteu o convencional com sua voz própria e única.

E se dizia reacionário. Verdade: era anticomunista, apoiou a ditadura militar, vociferou contra as manifestações estudantis.  Mas quando ouviu seu filho, militante do MR8, relatar na prisão as torturas pelas quais passou, optou pelo humanismo taciturno e melancólico.

Mas nunca perdeu o sarcasmo e o senso crítico, tal como uma sutil alfinetada embaixo da unha. Tarado e pervertido, diziam as vozes das senhoras pudicas e dos senhores circunspectos comentando sobre o elenco de promíscuos, desafortunados sexuais, traidores, pederastas, exploradores e enganados que compunham seus personagens. “A virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e causa úlceras imortais”, escreveu ele. Seria hoje mais odiado que então, incapaz de se ater aos cânones do politicamente correto. “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo”, escreveu certa vez.

Foi um escritor de mão cheia, produzindo intensamente crônicas nos diários e peças teatrais — mas, no fundo, sempre procurou o romance. Em mais de trinta anos de comentários esportivos na imprensa escrita, conseguiu, como ninguém, unir literatura e futebol, alcançando um tom maior em seus comentários, superando a superfície da imprensa — e cunhou a expressão “idiotas da objetividade”, aqueles que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.

Dois casamentos, vida familiar conturbada, um eterno apaixonado pelas mulheres, Nelson Rodrigues sobreviveu ao seu tempo por pura teimosia. “Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de ‘a mais cínica das épocas’. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas”. Mas em que época ele teria sido conveniente? Felizmente, em nenhuma. Nem que tivesse cem anos de idade.
Fonte:http://revistaalfa.abril.com.br/

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