28.8.12

Transviada contra a ordem sexual: má fé e vergonha

Texto de Tatiana Lionço

Após episódio de distorção de meus argumentos em um pronunciamento público na Câmara dos Deputados, ocasionado pela edição das falas e atribuição de legendas interpretativas a afirmações descontextualizadas, cá estou eu assistindo a um processo de difamação crescente associado ao meu nome na internet. Estava eu, há três meses atrás, desempenhando o meu papel social como pesquisadora no país e ativista no enfrentamento expresso da homofobia. É triste acompanhar essa disponibilidade à agressão e violação moral. Tenho aproveitado para descobrir blogs na rede em que se prega o ódio, a intolerância, o desrespeito à imagem das pessoas, a atribuição de valores como o da promiscuidade e o da anormalidade sexual a pessoas públicas que lutam contra a homofobia no país.

Como sou ativista em direitos sexuais, tenho sistematicamente pesquisado movimentos de desconstrução de estereótipos de gênero e também o que se denomina pós-pornografia. Tenho me interessado nos últimos anos tanto por biografias de pessoas consideradas indignas em suas práticas sexuais e em suas expressões da masculinidade e da feminilidade quanto acompanhando a produção imagética de profissionais do sexo que se tornaram ícones de seu tempo. Duas dessas personalidades são Annie Sprinkle e François Sagat, a quem eu escolho me referir diretamente nesta reflexão por terem sido apresentados em uma matéria de menção desqualificatória ao meu nome.

Annie Sprinkle é uma ex-prostituta que após três décadas de vida sexual com homens se apaixona por uma outra mulher. Indignaram-se por eu haver publicado um video do youtube em minha conta do facebook em que havia a sinalização de que o mesmo era impróprio para menores de idade. Caso desconheçam a minha idade, saibam que já faz tempo que eu passei desse limite da menoridade para a maioridade civil. Caso acreditem que apesar de terem já alcançado a maioridade civil seja inadequado assistir a um video sinalizado como impróprio para menores, o melhor seria não assistir.

No video, não há cenas de sexo, mas a narrativa de Annie Sprinkle sobre o seu trabalho sexual. Nos conta como foi ser prostituta e quando se apaixonou por uma outra mulher, com quem faz menção ao desejo de procriação biológica via inseminação artificial.

Apresentam também, na mesma matéria desqualificatória envolvendo o meu nome, uma foto em que eu estou recebendo uma lambida em minhas costas tatuadas por um famoso astro pornô, o François Sagat. Para quem não sabe, Sagat é um ícone gay da indústria pornográfica, mas um ícone justamente por se apresentar provocativamente associando a sua imagem visivelmente viril e masculina a adereços e vestimentas femininas. Eu tive a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente em um show pornô que ele fez na minha cidade. Na ocasião, pedi ao fotógrafo que nos fotografasse e espontaneamente registramos a imagem, agora usada pela má fé de cristãos fundamentalistas e sem a minha autorização. Eu adoro a foto. Eu mesma a tornei pública. Mas sou eu quem detém direitos sobre a imagem, e apenas eu decido onde, quando e como publicá-la.

Continua:http://blogueirasfeministas.com/2012/08/transviada-contra-a-ordem-sexual-ma-fe-e-vergonha/

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